domingo, 29 de dezembro de 2013

Ovo de falcão

Sempre fui muito ligado a símbolos. A maior parte dos meus amigos, se questionado sobre qual o símbolo que me representa responderá facilmente que é o Olho de Hórus. Num primeiro momento, por admirar o significado da sabedoria e da visão aguçada, adotei o símbolo como meu, exaltando as virtudes que gostaria de ter. No entanto, com o passar dos anos, conheci uma gama enorme de significados atribuídos a ele, de tal modo que eu pude valorizá-lo cada dia mais. Hoje, eu sei que ele simboliza os valores com os quais eu compactuo, a fé que eu professo e a liberdade com a qual eu desejo viver.
Há anos, carrego esse símbolo comigo, todo o tempo, na forma de um medalhão, presente de queridos amigos. Não gosto de sair sem ele, não pelo apego material ou pela crença que alguns tem, de que é um símbolo de proteção, pois nem sequer acredito nessas supertições. Eu não gosto de sair sem ele porque carregá-lo no peito é como dar um testemunho, silencioso e íntimo, daquilo em que eu acredito e da forma como procuro viver. Há dois dias, contudo, fui obrigado a deixar meu Olho de Hórus pra trás e mais uma vez ele carregou consigo um novo simbolismo: ao representar minha própria essência, é como se ele tivesse recebido toda a ofensa que me atingiu.
Naquela noite saí de casa com o objetivo de me divertir, de dançar até doerem os pés dentro dos sapatos, de rir a valer. Saí de casa com um sorriso no rosto, aquele que dizem que é charmoso, mas que eu só acho que é de sincera felicidade. Na fila da danceteria, conversava sobre a vida, sobre como a vida tem sido indescritivelmente inacreditável na simplicidade de cada momento realmente apreciado em sua unicidade. De repente, senti uma pancada no rosto. Ouço um carro acelerando e pessoas gritando. Não entendi muito bem porque alguém ali na fila iria me jogar uma pedra de gelo. Foi muito rápido. Começou a doer e parecia que tinha me molhado muito. Olho em volta e, para minha surpresa meu amigo estava banhado de alguma coisa que, primeiro bateu em mim, depois espirrou nele. Ele não estava enxergando porque atingiu seus olhos e suas lentes de contato. Foi tudo muito rápido. Passei a mão na cabeça e percebi que, na verdade, não havia vindo da fila e não era uma pedra de gelo: eram ovos, lançados de um carro, de alguém que descia a avenida unicamente com esse propósito.
Todos sujos, melados, com um cheiro insuportável, o cabelo e as roupas grudando, fomos obrigados a ir embora. Nós nos limpamos um pouco com lenços de papel antes de entrar no carro, para não sujar tudo. Entramos e resolvemos voltar para minha casa, para que pudéssemos nos recompor. Quando entrei no banheiro e fechei a porta, vi meu rosto completamente imundo no espelho. Só o que queria naquele momento era me limpar e depois ficar em casa, magoado, ofendido, odiando a ignorância de quem havia feito aquilo. Sem pensar muito, tirei meu medalhão e fui tomar um banho. O cheiro não parecia querer sair da pele, do cabelo, da cabeça. Cheiro de ovo, cheiro de violência, cheiro de humilhação. Os cheiros se confundiam, mas no fim, ele era um só cheiro podre: cheiro de intolerância.
Hórus é o deus dos céus, seus olhos são o Sol e a Lua, então ele observa ação e coração, onde quer que esteja. Ele voa, na forma de um falcão, poderoso e imponente porque a sua liberdade não tem limites. Quando ele lutou com Seth seu olho esquerdo foi arrancado e a Lua parou de brilhar, mas os deuses substituíram sua vista por um amuleto e, depois dele vencer a batalha, eles conseguiram lhe restituir o olho. Hórus é o deus da guerra, essa guerra é a representação da batalha que travamos todos os dias contra aquilo que nos cega, contra aquilo que nos tira a liberdade. De olhos realmente abertos somos livres e poderosos, podemos conhecer nossa Verdadeira Vontade e nos realizarmos. Esse é o objetivo da vida, viver realizado.
Saí do banho com isso em mente. Limpo e com a dignidade e a Visão reconstituídos. Quando vi meu medalhão, ele estava emporcalhado, totalmente sujo. Eu levaria bastante tempo para limpar a corrente, tirar todos os resquícios, cascas, não podia fazer isso naquele momento, meu deus, Hórus, me conclamava a uma missão mais importante. A palavra de pecado é restrição e ficar em casa remoendo aquilo seria o mesmo que restringir a mim mesmo, seria aceitar que o ato infame daquela pessoa estava tomando a minha liberdade e o que é pior, restringindo o que possuo de mais sagrado: a minha Vontade. Voltamos para a danceteria. Naquela noite eu me diverti, dancei até doerem os pés dentro dos sapatos, ri a valer. Naquela noite eu fiz exatamente aquilo que eu queria fazer quando saí de casa da primeira vez: vivi.

Pena que nem todos tem a capacidade de Ver. Ver é ser livre. Viver a liberdade é a verdadeira felicidade.

Max

domingo, 22 de dezembro de 2013

Feitiçaria de verão

Trilhei muitos caminhos para aprender o que segredo do lado de lá do mar. Primeiro o mestre me mandou olhar o meu reflexo nas águas calmas da lagoa. Contemplei a mim mesmo, do nascer ao por do sol. Então a noite chegou, sem estrelas e sem luar, e eu já não via mais a mim mesmo. Perguntei ao mestre o que deveria fazer já que eu não reconhecia mais meu reflexo nas águas agitadas do lago. Fique quieto e vá embora, disse ele, vá caminhar.
Sozinho e em silêncio, caminhei por toda a terra. Cheguei à encruzilhada sem saber que rumo tomar. Voltei ao mestre e perguntei o que deveria fazer já que estava na encruzilhada, sem mapa para me orientar. Conhece a todos pelo caminho, disse ele, alguém há de te orientar.
Conheci e observei toda pessoa pelo caminho, escolhi, enfim, o rumo que deveria tomar. Novamente a noite chegou e eu não reconhecia o lugar em que estava. Voltei-me ao mestre e perguntei o que deveria fazer já que havia escurecido e eu não tinha certeza se estava onde deveria estar. Você agora é feiticeiro, disse ele, se tiver dúvida, a única solução é queimar.
Eu estava com medo do Fogo, mas estava determinado a prosseguir. Precisava refletir e descansar antes de continuar. Num lindíssimo dia de verão, cheguei à praia deserta e o barulho do mar foi o aconchego da alma cansada de tanto caminho. Com o coração tranquilo, sentia a areia sob meus pés e andava sem pressa, pelo tempo que me foi necessário. Então vi que, por mais que eu andasse na areia, as pegadas eram levadas pelas ondas quando a maré mudava e, do passado, restava apenas lembrança. Satisfeito, decidi que havia chegado a hora de queimar.

O mar está fervendo.

A fogueira foi quem esquentou a água do mar.
Eu acendi a fogueira pra fazer mandinga,
acendi a fogueira pra poder queimar.
Eu acendi o fogo nas águas do mar.
Eu dançava aquela dança insana,
aquela dança de roda,
aquela dança de rodar.
Eu rodava feito louco,
cantava em volta da fogueira,
rodava cantando,
cantava rodando,
rodava e cantava,
cantava e rodava,
queimando e queimando
nas águas do mar.

O mar está fervendo!

Depois de todo o Fogo, toda a dança, todo o feitiço de verão, não havia mais medo e o oceano que me separava daquele aprendizado estava seco. Atravessei a pé toda a distância e consegui chegar. Lá me esperava o Mestre. Você aprendeu, disse ele, aprendeu andando que você sempre teve asas para voar.


Max

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sonhos de pó e amor perfeito

Outro dia alguém me disse que queria sumir, “como pó”. E eu lhe respondi que o pó não some, só voa. Tudo é pó, nós viemos do pó, somos só um pouco de pó que está junto por um tempo e com um único e grandioso objetivo: viver. Eu, quando acabar, quero voltar ao pó, virar pó e sair voando por aí, completamente livre, sem receio, sem preocupação, sem consciência, sem peso nenhum pra carregar. Imagine só, leveza absoluta! O pó é a forma concreta da leveza e, infelizmente, a gente se esquece dessa nossa origem, se esquece de levar a vida leve, se esquece de viver cada dia como um sonho, único e passageiro.
Quando vou para o trabalho de manhã, procuro olhar em volta para refletir sobre o que o caminho de casa até o ponto de ônibus pode me mostrar. Passo por um pequeno gramado que, de tanto passarem por ali, já formou uma trilha de terra batida e poeirenta. Reparei, nessa manhã, que na beira do caminho, em meio ao pó, florescia um único amor perfeito. Parei pra pensar no nome da flor. Repeti para mim mesmo algumas vezes “amor... perfeito... amor, perfeito... amor perfeito”. Então eu sorri, sorri aquele meu sorriso de sempre, despretensioso e quiçá ingênuo, sorri como criança que descobre algo novo e fantástico. Achei incrivelmente engraçado ter uma flor, tão simples, que crescia até no meio do pó, completamente ignorada, com o nome de “amor perfeito”. A gente fica com essa ideia fixa de que é tudo muito complexo, que é tudo muito pesado e não presta atenção na leveza! O amor perfeito é só isso: simplicidade e leveza.
A gente cria empecilhos até pra sonhar. Sonhamos só o que é racionalmente realizável. Veja só que tolice! Sonho, logicamente, não é pra ser, a princípio, realizável! Sonho é o alimento da felicidade de cada manhã, é parte mais importante do meu café da manhã (e dizem por aí que o café da manhã é a refeição mais importante do dia), o sonho é aquela loucura que me faz cantar sozinho no caminho pro trabalho ou na volta da feira. Sonho é pra ser absurdo a ponto de nos fazer criar coisas que, até então, eram inimagináveis, conquistar coisas que eram impensáveis, realizar nossas existências com uma alegria sem tamanho. Sonho é pra sonhar sem compromisso. Quando nós nos comprometemos a sonhar sem compromisso, tornamos a vida leve porque percebemos que os sonhos mais irreais são os que conduzem a mais concreta realização.
Eu aprendi tantas coisas pelas quais sou grato. Aprendi a viver a minha Verdadeira Vontade como regra e único limitante da vida. A vida não é pra ter limite além do limite da vida dos outros. Se cada um segue seu caminho, ninguém atrapalha o caminho de ninguém. Quando aprendi isso, muitos e muitos pesos se foram e, felizmente, muitas e muitas conquistas e experiências inacreditáveis vieram no lugar deles. Agradeço, a cada manhã, porque, apesar de acumular aprendizados, apesar de envelhecer a cada instante, todo dia aprendo a ser mais leve, a desapegar do desnecessário, a abdicar do sofrimento e a juntar o que realmente importa no coração. No fim, vai tudo virar pó, só vai sobrar o que couber no coração.

Bons sonhos!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Viva a Consciência!

Consciência. Essa é a palavra que descreve a minha Fé hoje. Já há muito deixei de acreditar que há um Destino acorrentando os homens a uma sentença de vida. Não acredito mais na Verdade absoluta. Não acredito mais que existam o certo e o errado, o mal e o bem, o belo e o feio, senão e tão unicamente pela visão, pessoal e intransferível, de cada um. Só minha Consciência, sagrada e inviolável, pode me dizer o que é a minha própria Verdade. Aquele que não age de acordo com a sua própria Verdade pode enganar o mundo, mas não pode enganar a si mesmo, não pode fugir da sua Consciência e, por isso, não passa senão de um escravo. Se hoje eu estou publicando um texto diferente da maioria que já escrevi, é porque eu vivo de acordo com a minha Consciência, é porque eu acredito na minha Verdade, é porque eu creio que devemos ser livres, é porque eu sei que “os escravos servirão”.
Não costumo me manifestar sobre questões políticas. É difícil conversar sobre política já que, geralmente, visões incongruentes e a nossa falta de prática no debate acabam transformando diálogos entre amigos em discussões excessivamente acaloradas. Não gosto disso. Mesmo assim, não pude ignorar o que vi e ouvi hoje. Por isso mesmo eu escrevo, porque quando escrevo é a minha Verdade quem fala e a minha Verdade, pautada pela minha Consciência, não pede aplausos, não pede apoio e, principalmente, não deve respostas ou satisfações a nada nem a ninguém.
Parece-me óbvio perceber que as manifestações que acontecem em diversos lugares do País são fruto de muito mais do que uma reivindicação pela redução do valor das passagens do transporte coletivo: elas são fruto de uma esperança de Liberdade, de uma tomada de Consciência. Andando pelas ruas, observamos inúmeros problemas que precisam de solução. Talvez alguns julguem que essa é uma causa “banal” em relação a tantas coisas terríveis que se vêem por aí. Eu poderia desconsiderar a diferença que esse aumento faz no meu parco salário de professor e concordar, mas tenho o cuidado de lembrar que é por desconsiderarmos as “banalidades” que somos levados a cometer os maiores erros ou perder as melhores oportunidades nas nossas vidas. Esperar por uma “causa perfeita” para lutar pode parecer muito saudável agora, na juventude da Consciência, mas é possível que, até que esse dia chegue, os olhos estejam cegos, os ouvidos surdos e as Liberdades completamente tomadas.
A libertação pode não parecer bonita para todos, mas a mim parece. Apesar de todas as cenas trágicas, eu vejo uma grande beleza no que aconteceu neste dia: lembra um despertar, parece um abrir de olhos, um nascimento, tão sutil e comovente como qualquer outro. Hoje, consigo ver pessoas, outrora completamente inertes, perceberam o som de sua própria voz e a força de suas próprias palavras. Vi muitos reconhecerem a importância de si mesmos na sociedade e repensarem sua conduta com relação àquilo que traz benefícios a todos em detrimento de seu egoísmo. Entendi, eu mesmo, que devemos dispor de todos os meios que possuímos para propagar essa onda a todos os setores, todas as instituições e todas as pessoas para que também outras causas façam, em breve, parte da realidade de cada um.

Essa é a minha Verdade. Ninguém deve abraçá-la por ser minha, mas espero que essas palavras façam com que cada pessoa reconheça e viva sua própria Verdade, no seu trabalho, na sua família, no seu protesto, na sua pequena revolução interior. Tenho Fé na Liberdade. Consciência é Liberdade, Liberdade é Poder.