terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Mudança de Fase

Ontem eu estava sentindo muito calor. Já passava das dez horas da noite. Abri a geladeira procurando por água, mas não encontrei nenhuma bebida gelada. Sem pensar muito, enchi uma garrafinha de água e coloquei no congelador. Depois de fechar a porta pensei “Tenho que lembrar de tirar antes de ir dormir”. Continuei lendo, pesquisando, assistindo vídeos na internet. Fui dormir. Acordei e estava sentindo muito calor. Lembrei da garrafinha. Quando eu a retirei do congelador, achei bonita a forma do bloco de gelo, com a luz do Sol o atravessando. Fotografei a garrafa, mirando exatamente contra o Sol.

A água líquida é transparente, nós conseguimos ver através dela com facilidade. Quando a água está na fase sólida, lhe chamamos gelo. Gelo é translúcido. Isso significa que a luz, quando o atravessa, é obrigada a mudar de direção e, por isso, quando olhamos através dele, não vemos imagens perfeitas, mas um espectro distorcido do que está do outro lado. Ainda é a mesma substância, mas são fases diferentes, ainda é a mesma luz, mas percorrendo outros caminhos.
Como se fosse água, nossa vida flui e muda de fase dependendo da temperatura dos nossos ânimos. Às vezes, acreditamos que nos tornar como gelo será bom, mas a rigidez e a frieza da razão exacerbada não deixam passar a luz da realidade. Outras vezes, deixamos nosso coração guiar, esquentando demais, daí os sentimentos confundem tudo como se fosse névoa, nuvem, vapor...
Se olharmos um lago de águas puras, calmas e cristalinas, é possível que consigamos ver o fundo. Conseguiremos diferenciar os peixes, as plantas, as pedras, talvez até vejamos o nosso próprio reflexo com alguma nitidez. No rio, de água corrente e agitada, as formas mudam rápido e nem a velocidade da luz vence a fluidez da vida que segue. Olhando a água agitada não diferenciamos a planta do peixe, a pedra da terra, não vemos os detalhes das marcas que a jornada deixou no nosso reflexo.
Somos arrogantes na nossa ciência. Dizemos que a água, na fase “ambiente” é líquida. Tenho uma amiga que vai se mudar para uma terra onde a temperatura pode chegar a menos 10°C, nesse ambiente, a água é sempre sólida. No céu, acima de nossas cabeças, a água é gasosa e é também ambiente. Quem define qual ambiente é o padrão? Quem define o que é normal? A neve não é normal nos polos? As nuvens não são normais no céu?
O ambiente molda a água assim como molda a nós mesmos. Assumimos que a fluidez da água líquida é sua fase nas condições “padrão”. Devemos ser fluidos, devemos nos adequar aos recipientes, tomando a forma de nossas cadeiras no trabalho, nossas camas, nos espaços que nos são adequados.

Mas somos água! Não necessariamente líquida, nós somos a substância água! Vamos vagar ou parar, ceder ou resistir, mudar de fase como manda nosso temperamento. Temos que ocupar nossos espaços da forma como quisermos e, se quisermos, nos espalharmos deleitosos por aí à fora, voando como vapor, chovendo como chuva, caindo leves como neve. Somos de fases. Sempre novos, sempre em mudança. Somos água.

terça-feira, 1 de março de 2016

Janelas

Estamos nos acostumando a olhar somente pelas janelas virtuais: não observamos o mundo a nossa volta com a devida atenção porque, através da janela mágica de nossos computadores, sofremos da ilusão coletiva de que estamos olhando por todas as janelas de uma só vez.
Ontem à noite, olhei pela janela da sala e percebi, pela primeira vez, quão gigantesco é o prédio que se ergue, solitário, há duas quadras daqui. De onde a vista alcança, contei 27 andares. Cada qual com suas varandas, suas charmosas luzes acesas, seus moradores que provavelmente estão olhando os smartphones, lendo notícias em seus tablets, assistindo séries e reportagens pelas suas janelas HD. Cada apartamento, iluminado, à meia luz ou mesmo escurecido, tem pessoas, moradores com histórias individuais. Cada janela, uma história ignorada.
Acordei na madrugada. Olhei as horas no celular: cinco. Percebi uma escuridão além do habitual no quarto. As pequenas luzes dos aparelhos eletrônicos não estavam acesas. Faltava energia elétrica. De repente, um estouro. Um transformador explodiu em algum lugar da redondeza. Está se tornando habitual. Minutos depois, outro estouro. Em seguida, mais um. Voltei a dormir em meio aos sons dos canhões da modernidade.
Até agora a energia não voltou. São quase oito horas e acabo de ouvir um novo estouro. É um sentimento estranho, uma sensação diferente. Parece que, sem poder olhar por nossas janelas mágicas, todas as outras janelas deixam de existir. Um certo torpor, como se ainda não estivesse desperto de fato. Pego papel na gaveta e uma caneta preferida e começo a escrever.
Olho pela janela da sala e o cruzamento não parece tão caótico quanto imaginava com o semáforo desligado, um pouco descoordenados, tal qual dançarino sem ritmo, os carros continuam sua dança. Pais chegam para trazer as crianças a pré-escola em frente. Com suas pequenas mochilas e guarda-chuvas abertos, eles aguardam alguns minutos, mas logo vão embora: não podem acolher as crianças já que não há previsão da volta da energia. O prédio, tão atraente da noite anterior, já sem o glamour das luzes, permanece indiferente à chuva, ao vento ou às preocupações dos moradores.
O bairro repleto de casinhas antigas, cresceu muito nos últimos anos. Fincaram por toda parte torres enormes, em meio às muitas vilas habitadas pelos senhores e senhoras, imigrantes de uma época que já não existe. A rede elétrica não comporta o progresso. Vemos transformadores estourando de tempos em tempos. O trânsito é ruim porque há carros demais, os mercados estão sempre cheios porque há consumidores demais, as escolas não têm vagas porque há alunos demais. Amontoamos pessoas em prédios de 30 andares, como se casas na vertical pudessem suprir todas as necessidades das pessoas por espaço. A estrutura precisa ser verticalizada na mesma proporção das moradias.

Quando foi que isso aconteceu? Acho que estávamos muito ocupados para ver o mundo mudando da nossa própria janela e preferimos ficar olhando dessa “janela de ninguém”. A energia voltou. Melhor ligar logo o computador e passar à limpo esse texto: onde já se viu, hoje em dia, escrever com papel e caneta?

domingo, 29 de dezembro de 2013

Ovo de falcão

Sempre fui muito ligado a símbolos. A maior parte dos meus amigos, se questionado sobre qual o símbolo que me representa responderá facilmente que é o Olho de Hórus. Num primeiro momento, por admirar o significado da sabedoria e da visão aguçada, adotei o símbolo como meu, exaltando as virtudes que gostaria de ter. No entanto, com o passar dos anos, conheci uma gama enorme de significados atribuídos a ele, de tal modo que eu pude valorizá-lo cada dia mais. Hoje, eu sei que ele simboliza os valores com os quais eu compactuo, a fé que eu professo e a liberdade com a qual eu desejo viver.
Há anos, carrego esse símbolo comigo, todo o tempo, na forma de um medalhão, presente de queridos amigos. Não gosto de sair sem ele, não pelo apego material ou pela crença que alguns tem, de que é um símbolo de proteção, pois nem sequer acredito nessas supertições. Eu não gosto de sair sem ele porque carregá-lo no peito é como dar um testemunho, silencioso e íntimo, daquilo em que eu acredito e da forma como procuro viver. Há dois dias, contudo, fui obrigado a deixar meu Olho de Hórus pra trás e mais uma vez ele carregou consigo um novo simbolismo: ao representar minha própria essência, é como se ele tivesse recebido toda a ofensa que me atingiu.
Naquela noite saí de casa com o objetivo de me divertir, de dançar até doerem os pés dentro dos sapatos, de rir a valer. Saí de casa com um sorriso no rosto, aquele que dizem que é charmoso, mas que eu só acho que é de sincera felicidade. Na fila da danceteria, conversava sobre a vida, sobre como a vida tem sido indescritivelmente inacreditável na simplicidade de cada momento realmente apreciado em sua unicidade. De repente, senti uma pancada no rosto. Ouço um carro acelerando e pessoas gritando. Não entendi muito bem porque alguém ali na fila iria me jogar uma pedra de gelo. Foi muito rápido. Começou a doer e parecia que tinha me molhado muito. Olho em volta e, para minha surpresa meu amigo estava banhado de alguma coisa que, primeiro bateu em mim, depois espirrou nele. Ele não estava enxergando porque atingiu seus olhos e suas lentes de contato. Foi tudo muito rápido. Passei a mão na cabeça e percebi que, na verdade, não havia vindo da fila e não era uma pedra de gelo: eram ovos, lançados de um carro, de alguém que descia a avenida unicamente com esse propósito.
Todos sujos, melados, com um cheiro insuportável, o cabelo e as roupas grudando, fomos obrigados a ir embora. Nós nos limpamos um pouco com lenços de papel antes de entrar no carro, para não sujar tudo. Entramos e resolvemos voltar para minha casa, para que pudéssemos nos recompor. Quando entrei no banheiro e fechei a porta, vi meu rosto completamente imundo no espelho. Só o que queria naquele momento era me limpar e depois ficar em casa, magoado, ofendido, odiando a ignorância de quem havia feito aquilo. Sem pensar muito, tirei meu medalhão e fui tomar um banho. O cheiro não parecia querer sair da pele, do cabelo, da cabeça. Cheiro de ovo, cheiro de violência, cheiro de humilhação. Os cheiros se confundiam, mas no fim, ele era um só cheiro podre: cheiro de intolerância.
Hórus é o deus dos céus, seus olhos são o Sol e a Lua, então ele observa ação e coração, onde quer que esteja. Ele voa, na forma de um falcão, poderoso e imponente porque a sua liberdade não tem limites. Quando ele lutou com Seth seu olho esquerdo foi arrancado e a Lua parou de brilhar, mas os deuses substituíram sua vista por um amuleto e, depois dele vencer a batalha, eles conseguiram lhe restituir o olho. Hórus é o deus da guerra, essa guerra é a representação da batalha que travamos todos os dias contra aquilo que nos cega, contra aquilo que nos tira a liberdade. De olhos realmente abertos somos livres e poderosos, podemos conhecer nossa Verdadeira Vontade e nos realizarmos. Esse é o objetivo da vida, viver realizado.
Saí do banho com isso em mente. Limpo e com a dignidade e a Visão reconstituídos. Quando vi meu medalhão, ele estava emporcalhado, totalmente sujo. Eu levaria bastante tempo para limpar a corrente, tirar todos os resquícios, cascas, não podia fazer isso naquele momento, meu deus, Hórus, me conclamava a uma missão mais importante. A palavra de pecado é restrição e ficar em casa remoendo aquilo seria o mesmo que restringir a mim mesmo, seria aceitar que o ato infame daquela pessoa estava tomando a minha liberdade e o que é pior, restringindo o que possuo de mais sagrado: a minha Vontade. Voltamos para a danceteria. Naquela noite eu me diverti, dancei até doerem os pés dentro dos sapatos, ri a valer. Naquela noite eu fiz exatamente aquilo que eu queria fazer quando saí de casa da primeira vez: vivi.

Pena que nem todos tem a capacidade de Ver. Ver é ser livre. Viver a liberdade é a verdadeira felicidade.

Max

domingo, 22 de dezembro de 2013

Feitiçaria de verão

Trilhei muitos caminhos para aprender o que segredo do lado de lá do mar. Primeiro o mestre me mandou olhar o meu reflexo nas águas calmas da lagoa. Contemplei a mim mesmo, do nascer ao por do sol. Então a noite chegou, sem estrelas e sem luar, e eu já não via mais a mim mesmo. Perguntei ao mestre o que deveria fazer já que eu não reconhecia mais meu reflexo nas águas agitadas do lago. Fique quieto e vá embora, disse ele, vá caminhar.
Sozinho e em silêncio, caminhei por toda a terra. Cheguei à encruzilhada sem saber que rumo tomar. Voltei ao mestre e perguntei o que deveria fazer já que estava na encruzilhada, sem mapa para me orientar. Conhece a todos pelo caminho, disse ele, alguém há de te orientar.
Conheci e observei toda pessoa pelo caminho, escolhi, enfim, o rumo que deveria tomar. Novamente a noite chegou e eu não reconhecia o lugar em que estava. Voltei-me ao mestre e perguntei o que deveria fazer já que havia escurecido e eu não tinha certeza se estava onde deveria estar. Você agora é feiticeiro, disse ele, se tiver dúvida, a única solução é queimar.
Eu estava com medo do Fogo, mas estava determinado a prosseguir. Precisava refletir e descansar antes de continuar. Num lindíssimo dia de verão, cheguei à praia deserta e o barulho do mar foi o aconchego da alma cansada de tanto caminho. Com o coração tranquilo, sentia a areia sob meus pés e andava sem pressa, pelo tempo que me foi necessário. Então vi que, por mais que eu andasse na areia, as pegadas eram levadas pelas ondas quando a maré mudava e, do passado, restava apenas lembrança. Satisfeito, decidi que havia chegado a hora de queimar.

O mar está fervendo.

A fogueira foi quem esquentou a água do mar.
Eu acendi a fogueira pra fazer mandinga,
acendi a fogueira pra poder queimar.
Eu acendi o fogo nas águas do mar.
Eu dançava aquela dança insana,
aquela dança de roda,
aquela dança de rodar.
Eu rodava feito louco,
cantava em volta da fogueira,
rodava cantando,
cantava rodando,
rodava e cantava,
cantava e rodava,
queimando e queimando
nas águas do mar.

O mar está fervendo!

Depois de todo o Fogo, toda a dança, todo o feitiço de verão, não havia mais medo e o oceano que me separava daquele aprendizado estava seco. Atravessei a pé toda a distância e consegui chegar. Lá me esperava o Mestre. Você aprendeu, disse ele, aprendeu andando que você sempre teve asas para voar.


Max

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sonhos de pó e amor perfeito

Outro dia alguém me disse que queria sumir, “como pó”. E eu lhe respondi que o pó não some, só voa. Tudo é pó, nós viemos do pó, somos só um pouco de pó que está junto por um tempo e com um único e grandioso objetivo: viver. Eu, quando acabar, quero voltar ao pó, virar pó e sair voando por aí, completamente livre, sem receio, sem preocupação, sem consciência, sem peso nenhum pra carregar. Imagine só, leveza absoluta! O pó é a forma concreta da leveza e, infelizmente, a gente se esquece dessa nossa origem, se esquece de levar a vida leve, se esquece de viver cada dia como um sonho, único e passageiro.
Quando vou para o trabalho de manhã, procuro olhar em volta para refletir sobre o que o caminho de casa até o ponto de ônibus pode me mostrar. Passo por um pequeno gramado que, de tanto passarem por ali, já formou uma trilha de terra batida e poeirenta. Reparei, nessa manhã, que na beira do caminho, em meio ao pó, florescia um único amor perfeito. Parei pra pensar no nome da flor. Repeti para mim mesmo algumas vezes “amor... perfeito... amor, perfeito... amor perfeito”. Então eu sorri, sorri aquele meu sorriso de sempre, despretensioso e quiçá ingênuo, sorri como criança que descobre algo novo e fantástico. Achei incrivelmente engraçado ter uma flor, tão simples, que crescia até no meio do pó, completamente ignorada, com o nome de “amor perfeito”. A gente fica com essa ideia fixa de que é tudo muito complexo, que é tudo muito pesado e não presta atenção na leveza! O amor perfeito é só isso: simplicidade e leveza.
A gente cria empecilhos até pra sonhar. Sonhamos só o que é racionalmente realizável. Veja só que tolice! Sonho, logicamente, não é pra ser, a princípio, realizável! Sonho é o alimento da felicidade de cada manhã, é parte mais importante do meu café da manhã (e dizem por aí que o café da manhã é a refeição mais importante do dia), o sonho é aquela loucura que me faz cantar sozinho no caminho pro trabalho ou na volta da feira. Sonho é pra ser absurdo a ponto de nos fazer criar coisas que, até então, eram inimagináveis, conquistar coisas que eram impensáveis, realizar nossas existências com uma alegria sem tamanho. Sonho é pra sonhar sem compromisso. Quando nós nos comprometemos a sonhar sem compromisso, tornamos a vida leve porque percebemos que os sonhos mais irreais são os que conduzem a mais concreta realização.
Eu aprendi tantas coisas pelas quais sou grato. Aprendi a viver a minha Verdadeira Vontade como regra e único limitante da vida. A vida não é pra ter limite além do limite da vida dos outros. Se cada um segue seu caminho, ninguém atrapalha o caminho de ninguém. Quando aprendi isso, muitos e muitos pesos se foram e, felizmente, muitas e muitas conquistas e experiências inacreditáveis vieram no lugar deles. Agradeço, a cada manhã, porque, apesar de acumular aprendizados, apesar de envelhecer a cada instante, todo dia aprendo a ser mais leve, a desapegar do desnecessário, a abdicar do sofrimento e a juntar o que realmente importa no coração. No fim, vai tudo virar pó, só vai sobrar o que couber no coração.

Bons sonhos!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Viva a Consciência!

Consciência. Essa é a palavra que descreve a minha Fé hoje. Já há muito deixei de acreditar que há um Destino acorrentando os homens a uma sentença de vida. Não acredito mais na Verdade absoluta. Não acredito mais que existam o certo e o errado, o mal e o bem, o belo e o feio, senão e tão unicamente pela visão, pessoal e intransferível, de cada um. Só minha Consciência, sagrada e inviolável, pode me dizer o que é a minha própria Verdade. Aquele que não age de acordo com a sua própria Verdade pode enganar o mundo, mas não pode enganar a si mesmo, não pode fugir da sua Consciência e, por isso, não passa senão de um escravo. Se hoje eu estou publicando um texto diferente da maioria que já escrevi, é porque eu vivo de acordo com a minha Consciência, é porque eu acredito na minha Verdade, é porque eu creio que devemos ser livres, é porque eu sei que “os escravos servirão”.
Não costumo me manifestar sobre questões políticas. É difícil conversar sobre política já que, geralmente, visões incongruentes e a nossa falta de prática no debate acabam transformando diálogos entre amigos em discussões excessivamente acaloradas. Não gosto disso. Mesmo assim, não pude ignorar o que vi e ouvi hoje. Por isso mesmo eu escrevo, porque quando escrevo é a minha Verdade quem fala e a minha Verdade, pautada pela minha Consciência, não pede aplausos, não pede apoio e, principalmente, não deve respostas ou satisfações a nada nem a ninguém.
Parece-me óbvio perceber que as manifestações que acontecem em diversos lugares do País são fruto de muito mais do que uma reivindicação pela redução do valor das passagens do transporte coletivo: elas são fruto de uma esperança de Liberdade, de uma tomada de Consciência. Andando pelas ruas, observamos inúmeros problemas que precisam de solução. Talvez alguns julguem que essa é uma causa “banal” em relação a tantas coisas terríveis que se vêem por aí. Eu poderia desconsiderar a diferença que esse aumento faz no meu parco salário de professor e concordar, mas tenho o cuidado de lembrar que é por desconsiderarmos as “banalidades” que somos levados a cometer os maiores erros ou perder as melhores oportunidades nas nossas vidas. Esperar por uma “causa perfeita” para lutar pode parecer muito saudável agora, na juventude da Consciência, mas é possível que, até que esse dia chegue, os olhos estejam cegos, os ouvidos surdos e as Liberdades completamente tomadas.
A libertação pode não parecer bonita para todos, mas a mim parece. Apesar de todas as cenas trágicas, eu vejo uma grande beleza no que aconteceu neste dia: lembra um despertar, parece um abrir de olhos, um nascimento, tão sutil e comovente como qualquer outro. Hoje, consigo ver pessoas, outrora completamente inertes, perceberam o som de sua própria voz e a força de suas próprias palavras. Vi muitos reconhecerem a importância de si mesmos na sociedade e repensarem sua conduta com relação àquilo que traz benefícios a todos em detrimento de seu egoísmo. Entendi, eu mesmo, que devemos dispor de todos os meios que possuímos para propagar essa onda a todos os setores, todas as instituições e todas as pessoas para que também outras causas façam, em breve, parte da realidade de cada um.

Essa é a minha Verdade. Ninguém deve abraçá-la por ser minha, mas espero que essas palavras façam com que cada pessoa reconheça e viva sua própria Verdade, no seu trabalho, na sua família, no seu protesto, na sua pequena revolução interior. Tenho Fé na Liberdade. Consciência é Liberdade, Liberdade é Poder.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Nosso próprio tempo

Para o Rafa.

Marquei de encontrá-lo na entrada da estação de metrô às nove horas para pegar carona. Estava bem cedo quando terminei de me aprontar, me programei para que o tempo disponível fosse suficiente com folga: o trajeto demoraria, normalmente, em torno de vinte minutos, estava saindo com cinquenta de antecedência. Os ônibus passavam com intervalos curtos, certamente daria tempo. Terminei de conferir as coisas na mochila. Fechei. Saí tranqüilo de casa. Era uma bela manhã de segunda-feira, o sol prometia um início de semana agradabilíssimo. Enquanto caminhava calmamente, prestava atenção aos pássaros, às pessoas, aos desenhos das sombras das árvores nas calçadas. Ainda lembro-me da linda cena do símbolo do infinito que a sombra de alguns galhos formava, logo acima do batente de uma porta. Me fez pensar que “temos todo o tempo do mundo”.
Um homem e seu cachorro passeavam, mas não reparei muito bem no cachorro, lembro apenas que era um cachorro engraçado. Na esquina, olhei para os dois lados e vi que vinha um carro. Apertei o passo para atravessar a rua. O ponto de ônibus fica na quadra, na esquina. De longe, vi que um ônibus passou pelo ponto. Perguntei-me se poderia ser algum daqueles que vão em direção a estação, mas não importava: ele já havia passado. E se fosse aquele fosse o ônibus que eu deveria tomar e fosse demorar a passar outro?
Acelerei a caminhada em direção ao ponto. Cheguei e nem sinal de ônibus. Esperei “uma eternidade”. Quase meio minuto depois de chegar ao ponto, vem vindo um ônibus que ia em direção à estação. Até que enfim! Dei sinal. O ônibus parou. Todas as pessoas que esperavam se aglomeraram em frente à porta. Entrei por último. Mesmo sendo o último, procurei apressado, o dinheiro da passagem para pagar e passar logo pela catraca. O ônibus estava cheio. Não tinha nenhum lugar vago para sentar. Não consigo ficar parado. “Por que tanto trânsito hoje?”. “Esse motorista está de brincadeira com as pessoas!”. “Os ônibus demoram tanto pra passar que a gente nunca chega no horário”. Para não perder tempo, já me posicionei próximo à porta de saída. Quando o ônibus parou na estação, saltei rápido para plataforma e subi as escadas correndo. Por que do terminal de ônibus para a estação não são todas as escadas rolantes também?
Com passos largos e certeiros, fui desviando das pessoas pelo caminho. Uma trombada e um empurrão aqui e ali, alguns pedidos de desculpas pros homens ou mulheres pelos quais passei sem nem olhar no rosto. Enquanto ando, reviro a mochila em busca da carteira e a carteira em busca do bilhete. Achei. Logo estava atravessando as catracas. Ficar parado na escada rolante demoraria muito então desci correndo cinco degraus, mas havia pessoas na frente: tive de esperar pela acomodação alheia. O metrô estava de saída. Um pulo pra dentro do vagão enquanto tocava o sinal de fechar as portas. Só se ouviam reclamações: a lotação, a demora, o calor, a falta de conforto, a chuva. A voz do alto falante disse “Próxima estação...” e mentalmente eu completei a fras... Espere! Estava em choque...
... O que foi que eu fiz? Estava indo para a estação, mas não iria pegar o metrô, iria encontrar uma pessoa na própria estação! Perplexo, desci na estação seguinte para pegar o metrô no outro sentido, voltando para onde eu estava. Olhei no relógio e ainda não eram nem oito e meia, portanto eu estava mais de meia hora adiantado. Comecei a olhar em volta e só o que vi foram corpos robóticos, correndo como formigas alucinadas que curiosamente sabem para onde vão, em meio à desordem. Voltei enquanto via pessoas desrespeitando idosos e mães, completamente inseridas em suas conversas nos celulares, ignorando totalmente o que acontecia em torno delas.
Já de volta a estação, eu subi, tranqüilo, as escadas convencionais: curioso como a maioria vai pelas escadas rolantes abarrotadas para subir andando do mesmo jeito, enquanto as escadas convencionais ficam vazias. Caminhei, sossegado até o local onde deveria pegar carona, quando cheguei vi que ainda faltavam quase trinta minutos para o horário combinado. Mais do que perguntar o que ganhei correndo, me perguntei por que corri. Eu não conseguia responder.
Quanto mais meus olhos se abriam, mais estarrecido eu ficava. Era muito triste observar a agressividade latente, o olhar irado de uns para os outros. Esqueci a calma do início do dia? O canto dos pássaros, eu fiquei surdo a ele? Esforcei-me então para lembrar como era o cachorro engraçado. Não consegui. Todas as cenas depois daquela pareciam um turbilhão louco. Foi ali que a aceleração havia começado, ao atravessar a rua correndo. Como foi que nos tornamos isso? Senti vergonha. Quando foi que deixamos que essa “individualidade coletiva” nos isolasse tão completamente em nosso egoísmo até que, mesmo com centenas de milhares de pessoas a nossa volta, estivéssemos completamente sozinhos? Será que um dia conseguiremos manter os olhos abertos? Eu decidi tentar. Agora, sempre que começo a acelerar sem motivo, lembro do símbolo de infinito no batente da porta: temos todo o tempo do mundo.


Max.

sábado, 16 de março de 2013

A esperança diabólica



Falta muito pouco... O denso véu de nuvens escuras já há muito cobriu o sol. Não se sabe quando ele se pôs, apenas que a escuridão se abate sobre a face do mundo. A respiração, ofegante, se prende depois do mais longo e agoniante suspiro. Os punhos doem pela pressão com que estão cerrados. Os lábios sangram, mordidos com força. Os braços, cruzados, rijos, tremem angustiados. Como portões de ferro, as pálpebras subitamente se fecham. Trovões como tambores de guerra. A certeza já bate às portas. Falta muito pouco... falta um único segundo... menos, um instante! Então, sem qualquer justificativa, o relógio começa a retroceder.
A estrada parecia clara até aqui, o aglomerado de venturas e desventuras fez dos retalhos unidos uma belíssima cena. Agora, tudo parece estar do avesso. O cheiro do medo impregna o ar, o caos ri, estrondosamente, da confusão que impera. O relógio da torre de marfim bate a vigésima quinta hora. É uma ciranda louca e sinistra, um carrossel de animais mórbidos e macabros. Milhares de vozes demoníacas se levantam num coro diabólico e desarmonioso. As horrendas mensagens são ofensas sarcásticas, súplicas desesperadas em meio a urros de dor e prazer. O relógio bate três vezes.
Uma tropa abominável caminha, com fogo nos olhos e facas nas mãos. A sua marcha é o cortejo que conduz o prisioneiro ao carrasco. Sua juíza e também executora será a esperança, porque ele fez dela uma cega débil. Gritos e gargalhadas cortantes de vingança. O relógio bate, ensurdecedor, sem parar. A comitiva implora por sangue, eles desejam que os corvos arranquem os olhos de suas órbitas já que eles não foram usados para ver o óbvio. Os soldados, imundos, cantam: querem dilacerar os braços, que se mantiveram cruzados, querem queimar os pulmões que se fizeram inertes. Esperança deseja justiça.
Agora, acorrentado à roda de seu próprio destino, o prisioneiro nada pode fazer senão entregar-se aos ditames de sua condenação. Esperança não se carrega enclausurada na certeza da mente, pelo contrário, se alimenta na liberdade do coração para que seja forte e poderosa e não fria e sedenta de vingança. Ele não tem direito a nenhuma última vontade, pois negou todas e cada uma delas quando se entregou à certeza de sua vitória. Os ponteiros do relógio giram, frenéticamente, de frente pra trás. Dor, desespero, mais e mais fortes caem os raios, então, de repente, uma chuva de sangue começa. Ele está morto.
Às portas do Inferno vós podeis ler “Abandonai toda esperança, ó vós que entrais!”. Aprendei vós com isto e esperais, mas esperais vigilantes, guardai o alento tranquilo para encher os pulmões, a boca livre para gritar, os braços e punhos soltos para lutar e os olhos... os olhos vós mantende abertos, atentos e espertos. Nenhum inimigo vos poderá afligir se a Luz habitar nos salões de vossos olhos vigilantes e de vosso coração esperançoso. Esperança não é certeza, certeza é ilusão da mente, esperança é força da alma.

Quando eu abri os olhos, o relógio me disse “Retrocede”, era dia e ele voltou a andar para a frente.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Rodas e giros

Para Kátia, num dia comum,

A agradável manhã lança sobre ela seus raios de leveza e vigor. Discreta, solitária em sua simplicidade, parece inexistir enquanto aguarda, como fosse sábia e paciente, por sua nova jornada. O instante que precede a largada, o último suspiro antes do mergulho, a página em branco antes da história, são todos instantes, de certo modo, vazios e inexistentes. O compasso de espera na música não é um fim em si mesmo, mas a preparação para algo que grandioso que está por vir.
Arrebatada enfim, sem surpresa ou espanto, ela começa a se direcionar, no início, um pouco desequilibrada, mas logo com rumo firme, ainda que incerto. Voltas, voltas e reviravoltas... Insistimos na ideia de que temos controle sobre os delicados mecanismos que nos levam adiante nessa aventura, porém, uma vez em movimento, não há certeza de segurança. Alguns acidentes de percurso serão inevitáveis, seja por obstáculos, seja por descuido, ou até pela inexperiência de quem está aprendendo.
Algumas vezes queremos parar, cansados, diante da ladeira, ingrime, por subir, logo à frente. Então, cônscios da necessidade de chegar, preferimos caminhar, paralelamente às suas voltas, carregando-a sem, contudo, nos submetermos ao desgaste que ela nos infringiria. Esses mesmos giros podem ser tão suaves quanto se deseje, para um passeio casual ou um objetivo sem pressa nem prazo. O segredo é manter a constância, de tal modo que não tombemos pela estrada.
O movimento mais leve pode fazer virar numa curva inesperada e nos tirar dos eixos conduzindo tanto a felizes encontros como a desastrosas colisões. Meu conselho nessas horas é encarar tudo com bom humor, pois não há melhor remédio que um sorriso inesperado numa situação surpreendente.
Correr às vezes pode ser a única opção quando o tempo é pouco, mas também pode ser muito prazeroso quando o objetivo é se sentir mais livre e poderoso do que sempre. Vento no rosto ainda é o melhor jeito de sentir a ilusão de ter o mundo inteiro sob seu domínio enquanto na verdade se está indo, quase desgovernado e sem freios.
Acima de tudo, aproveite a jornada, pois, não sabemos quando começa a escurecer e o dia a acabar. Deve ser bem legal, mas eu não posso dar certeza sobre quase nada do que disse, afinal, eu não sei andar de bicicleta...

Max

domingo, 20 de janeiro de 2013

No Princípio era o Sonho...

- Para Gaga.


O pequeno aprendiz de feiticeiro subia aquela rua sinuosa como se fosse uma estrada secreta. Subindo e subindo, cercado de árvores e casas misteriosas, a curta distância se fazia incrível jornada na imaginação juvenil. A mágica, no entanto, estava lá no alto. Como um tesouro escondido num castelo a ser descoberto, há muitos e muitos anos, havia uma biblioteca.
Quando minha mãe nos levou àquela biblioteca pela primeira vez, não sabíamos ler. Mesmo assim, era fantástico encontrar tantos e tantos livros com desenhos maravilhosos e imaginar as histórias incríveis que depois ela poderia ler pra nós. Por muitos anos ela fez o caminho conosco, enquanto aguardávamos, ansiosos, para o encontro com o maravilhoso. Aquele lugar se tornou meu refúgio, mesmo depois, quando já podia seguir sozinho, pois era para lá que o coração me dirigia quando precisava enfrentar os desafios de crescer. Foram os livros que me ensinaram a sonhar.
Até poucos dias, com incertezas tantas à frente, poucas novidades pareciam interessantes para serem contadas nas cartas e mensagens que escrevo. Então alguém me disse que minhas novidades são sempre fantásticas e que minha vida, em meio a de tantas pessoas parecidas, é muito peculiar. Passei muitos dias refletindo sobre isso e agora acredito que essa afirmação seja parcialmente verdadeira. Alimentados pelas páginas de poetas, romancistas e dramaturgos, quantos e quantos sonhos surgiram e como cada um deles tem feito da minha vida uma sucessão de aventuras!
De anos e anos de sonhos, receio que tenha realizado pouquíssimos, quiçá, nenhum deles. Pode parecer estranho, mas isso deixa meu coração, além de aliviado, muitíssimo feliz. Entendi que os sonhos são nuvens, com formas que julgamos conhecer, contudo, é bom lembrar que nenhuma nuvem é um castelo ou uma árvore ou um dragão: somos nós que imaginamos essas coisas quando olhamos para elas. O mais importante não é descobrir o lugar mais lindo do mundo numa viagem, formar a família mais feliz e realizada, sermos presidentes que conduzem o povo à glória ou ganharmos o prêmio Nobel que mudará o destino do mundo, o que realmente importa nos sonhos são as aventuras às quais eles nos conduzem em cada um dos dias de nossas vidas.
O erro naquela afirmação não é sobre a minha vida, mas sobre as pessoas: ninguém é tão parecido, o que ocorre é que alguns não aprenderam a sonhar os seus próprios sonhos. O direito de sonhar tem sido tomado. Aquela biblioteca foi fechada alguns anos atrás. Ela não alimentará mais os sonhos de ninguém. Talvez devêssemos lutar para que a todos fosse dado o privilégio que me foi dado. A nossa verdadeira vontade é quase sempre desconhecida, por isso construímos barcos de coragem e fazemos velas de sonhos. Gostaria que todos tivessem pano para suas velas, acho que é por isso que eu continuo escrevendo, porque acredito que um dia, o que eu escrevi, vai fazer alguém sonhar.

No princípio era o Sonho, e a Sonho estava com a biblioteca e o Sonho era a biblioteca. Ela estava no princípio com o Sonho. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele, nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a minha aventura...

Max

domingo, 4 de novembro de 2012

Banho de chuva


O juramento assumido não foi jurado se não é vivido. Não há validade na promessa que não tem como prova a própria vida. Cada manhã será testemunha do compromisso de que todo dia é um passo daquele sonho, pois a manhã se abre para que os olhos a vejam, mas os olhos se abrem para ver a manhã. Acordado sonhando. Sonhando acordado. Sonhando que está acordado. A ordem faz diferença, mas já não importa.
Caminhando em direção a passagem, em meio ao jardim que a primavera trouxe. Tapetes de flores coloridas pelo caminho. Cigarras, pássaros, o sol tímido se erguendo no céu. Levando nas mãos aquilo que será absolutamente importante naquele dia. Na mala, leve, vai aquilo que é essencial, mas não necessariamente útil. A garça faz graça na lagoa, em cima do reflexo do sol. É hora de atravessar. A passagem pelo lago leva do jardim para a fantasia, é a toca do coelho da Alice, onde todos são loucos e se julgam mais normais que os outros loucos.
Quantas vezes passei pela passagem? Quantas vezes cruzei o abismo entre mundos? Quantas vezes até agora passei para aquele lado, além do jardim onde eu vivo, e hoje ele é só é um pedaço do caminho para um mundo mais além. Quando a gente vê que há um mundo além do jardim e do país das maravilhas a gente percebe que está mesmo sonhando. O ônibus vazio sai da fantasia e vai em direção ao falso caos rotineiro da cidade, completamente ordenado em sua desordem.
O canto dos pássaros se torna o barulho enervante dos carros, motocicletas e da música dos rebeldes que esqueceram sua revolta. Reparando nos que estão ao redor, se vêem mãos sempre livres e malas muito pesadas. O dia passa, rápido, afinal, sonhos são muito velozes. De volta ao ônibus para a toca do coelho. O céu do entardecer muda rapidamente para uma obscura revolta, é chuva que se aproxima. Já estava prevista, por isso as mãos traziam o guarda-chuva. Traziam. Já não trazem mais. Ele foi esquecido porque não se fez necessário em nenhum outro momento do dia.
Chuva muito forte vira banho de chuva quando não se pode mais adiar a descida do ônibus. Gargalhadas sozinho no caminho de volta, pela passagem do lago, para o jardim onde vivo. Cada gota de chuva é refresco pra alma, é o balde de água gelada que faz dormir quem estava sonhando acordado. Confiante, despreocupado, conhecedor da realidade. A chave de quem está ensopado gira tranquila na porta, não há pressa, não há nada a perder que já não esteja perdido.
Depois, relaxando sentado na poltrona, sozinho, ainda continuava sorrindo por ter compreendido. Os que estão ali, ao alcance da mão, são como guarda-chuvas: parecem muito importantes, mas são utilitários, ficam pelo caminho quando a ausência de necessidade faz esquecer deles. Perdi dezenas de guarda-chuvas pela vida e sempre fiquei chateado com a perda de cada um deles. Mesmo assim, nunca fiquei triste realmente como se tivesse perdido algo de dentro da mala. A mala é leve como o coração de quem deixa o peso inútil para trás e, sem precisar fazer esforço para lembrar ou manter por perto, carrega aqueles que são essenciais.
Max

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Estiagem


Sereno, contemplo a aridez. Ar poeirento. Terreno arenoso. Ramas secas, mortas, quebradiças como pele desidratada. A sensação grosseira do toque rude da pele seca passa cortante pela garganta sedenta. Gosto de sangue na boca rachada, cortada de sol. Ar que não rende. Ar que queima. Ar que dá falta de ar. Passos torturantes que buscam encontram só esterilidade. Tudo que não está morto está esperando a morte. Aves carniceiras espreitam no céu. Entregue, sem meios, cai o corpo de encontro ao chão do deserto. Sede.
A calma invade. O resto já foi, tragado pela seca. Tanto quanto a ansiedade, a calma não pensa, age sem saber. As mãos vão aos bolsos, quentes, mas protegidos do sol. No bolso da calma, uma semente. Que ironia: uma semente vermelha, grande, forte e vistosa, uma semente dentro do bolso da calma, no meio do deserto.
O grão duro não pode ser mastigado pela boca fraca e faminta. Não pode sequer ser espremido pelas mãos débeis para tirar dele algum líquido. Semente, no deserto, vale o mesmo que pedra. Jogada fora, do bolso da calma para o solo infértil. Jogada longe, com as últimas forças dos braços irados. Se é pra morrer na seca, que seja com o sangue fervendo.
Semente da salvação, cai na terra fazendo milagre. Cai na terra plantada como ventania, pra se colher tempestade. De repente, vem o vento e chicoteia o corpo caído. Antes de morrer, ele há de testemunhar o seu milagre. Acorda! Acorda da calma e sente a dor das chibatadas de areia na ventania! O sol não queima mais porque as nuvens escuras cobriram seu rosto brilhante, cobriram o azul do céu e ele já não pode ser visto. As nuvens cegaram o mundo.
O meio-dia está magnificamente escuro. O poder da semente confundiu o tempo e as nuvens carregadas criaram noite no deserto. A semente vistosa se prepara para receber o que lhe convém. O corpo, dilacerado pelo calor, pela sede e pela areia sangra com os olhos secos sem poder chorar. Então ri. Ri estrondosamente porque a loucura tomou lugar da serenidade contida e da calma inerte. E os risos soam como desafio às nuvens que invocam seus relâmpagos e raios terríveis e estrondosos.
Caem sem ter o que destruir, pois o sol queimou tudo antes deles. Ameaçadores, desenham na cortina negra do céu  as runas da sua força. A semente sorri e aguarda. O corpo está prestes a desfalecer. Então, em meio aos rugidos do vento e dos relâmpagos e da noite das nuvens negras, os cortes do corpo recebem as gotas grossas e fartas de chuva. Gordas, caem como pequenas pedras, pesadas sobre a pele sofrida. São o bálsamo ardoroso nas feridas do tempo. O orgulhoso sol caiu, a noite da tempestade se levanta.
A água refrescante é seu sangue, o vento forte é seu alento, as nuvens negras são seu corpo, o relâmpago é seu olhar e o trovão é sua palavra. “À batalha! À batalha que traz vida ao deserto!” Pois sua semente floresceu e frutificou numa árvore de frutos tais quais não há em nenhum Éden. Pois esse é o tempo do novo Éden, é o tempo do forte colher.
Há muito tempo não chovia...

Maximiliam

sábado, 15 de setembro de 2012

Sinceridade


Para mim a maior dificuldade na dança é seguir o ritmo da música. Algumas vezes parece que os passos e a força da melodia pedem que a gente acelere, mas na verdade os compassos seguem sem alteração. Outras tantas vezes os pés pedem leveza e calma enquanto a música corre rápido como o pensamento. É tudo questão de saber ouvir, mas tem vezes que o que a gente menos quer é ouvir a música a nossa volta...
Nos últimos dias, aprendi muitas coisas que podem ser vistas como duras ou cruéis, mas eu as vejo como fatos. Percebi as mentiras inocentes que as pessoas contam nas palavras de conforto. Às vezes a gente precisa de cuidado, mas acho que o mundo seria bem melhor se, na maior parte do tempo, o cuidado fosse para com a sinceridade. Pra quem passou muito tempo vivendo de carinho, é sofrível ouvir que os corações fortes não vencem as guerras, que são as armas que vencem as guerras. É difícil ouvir que os corações fortes podem resistir, suportar, mas não podem ferir ou subjugar, as espadas são pra isso.
É bom aceitar que a nossa vontade só se satisfaz no fio da espada, enfrentando o mundo todo se necessário for. A única guerra nobre e legítima é a do homem contra seus próprios demônios e, por que não, contra seus próprios deuses. No fim, deuses e demônios são só forças dinâmicas equilibrando o caos.
Via a desordem e não compreendia de onde podia nascer beleza no caos. Ontem vi um pequeno anjo cantar e aquilo me emocionou de tal forma que a vida pareceu fazer mais sentido. Os frutos só nascem da luta, da semente do caos é que vem as coisas mais belas. Seguir o ritmo, dar ouvidos a música a nossa volta e nada mais. Leveza na calma, força na ansiedade. Fico feliz por ter aprendido que dor e sofrimento são coisas da vida, são males necessários e que “todas as tristezas são nada mais que sombras; elas passam e pronto; mas existe aquilo que permanece”. Hoje eu sei que não há paz senão a quem conquista e não há amor senão a quem merece.
Até breve,
Maximiliam

domingo, 9 de setembro de 2012

Inversamente proporcional

Vontade de despejar todos os meus pensamentos de uma vez como a torrente forte do rio que corre livre e impetuoso. Queria um dia entender por que tudo tem que ser assim tão assado, por que é que as pessoas dizem que vivem assim assado e na verdade agem assim assim, queria entender o turbilhão de dúvidas que há em mim pras quais eu soube e sempre saberei que não há resposta.
A gente quer muita coisa. Hoje seria um bom dia pra escalar aquela parede, pra sentir o calor e o vento batendo no rosto. Também gostaria de morar na praia, se morasse na praia, sem dúvida que agora estaria olhando pro mar e perguntando por quê. Podia dar um jeito de ir dançar e dançar até os pés doerem de felicidade. Por sinal, hoje, faz exatamente um ano que eu comecei a dançar. Acho que foi uma das coisas mais legais que comecei a fazer na vida. Um acerto em meio a tantos erros. Um acerto que faz um ano e um ano que passou rápido. No fim, não sei dizer de fato se a passagem do tempo mudou alguma coisa concreta. Continuo querendo muita coisa.
Fazendo um balanço, de modo geral posso concluir que emburreci um pouco. Acredito que sei menos coisas do que sabia um ano atrás e sei mais coisas nas quais não acredito do que acreditava um ano atrás. Minha paciência diminuiu, talvez porque eu tenha percebido que esperar não é só um ato de força, mas uma profissão de fé. E descrente que estou em tanta coisa, fica difícil ter fé naquilo que se espera.
É... Hoje nada faz sentido... Nada. Parece que está tudo tão do avesso quando eu olho e ao mesmo tempo tudo tão normal quando lembro de como sempre foi... Tanto é verdade que, mesmo com tantos pensamentos na cabeça, esse é um dos menores textos que eu já escrevi.

Max

domingo, 29 de julho de 2012

Manhã vazia

Acordei com vontade de chorar, mas as lágrimas não vieram. Sentado na cama, senti como se tivessem me arrancado o coração e deixado aberto aquele espaço oco, aquele vácuo, aquele vazio. Vazio que deixa sem ar, naquela agonia ardente e sem dor. Começo a sorrir, aquele sorriso.

Ontem compensou todos os ontens anteriores. E hoje eu acordo com aquela sensação de que não vai haver nenhuma outra noite improvisada, harmoniosa e fantástica como a de ontem. Que tudo aquilo que o sono satisfeito deixou pra trás ficou no passado e não vai poder ser revivido. A sensação da lembrança mais bela e eternamente única: a verdade é que não dá pra repetir nenhum ontem e é por isso que hoje amanhece tão vazio.

Não é uma gargalhada, nem uma risada, é um sorriso, é o sorriso. Precioso, completo, verdadeiramente verdadeiro. Não tem como explicar essas coisas, até queria, mas não sou poeta pra falar palavras pra coisas silenciosas, pra coisas assim, eu só tenho aquele sorriso.

O vazio não tem barreiras, não tem incertezas nem preocupações. A gente pode tudo no vazio. Nessa hora, a gente mesmo é tudo porque o nada não tem limites. Aquele lugar é o melhor momento do dia porque fica fora do tempo que a gente conta. O vazio é um milagre que a gente testemunha todo dia, quando acorda.

Do que mais eu preciso, além desse sorriso? Sabe, agora as lágrimas vieram...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Barquinhos de Gelo e Fogo


Ouvi uma lenda sobre pequenos barquinhos mágicos correndo pelo rio da vida. Leves, velozes e sorrateiros, eles são enviados pelo Destino e vem para nos levarem aonde realmente desejamos ir. Segundo a lenda, cada pessoa só verá passar três deles e, dado que uma vez em movimento eles nunca podem ser parados, para conseguir embarcar precisamos estar preparados para saltar quando os avistarmos. Muito embora eu não acredite na lenda, talvez não haja no mundo mágica mais verdadeira.
O domingo extremamente frio da última semana veio acompanhado de um adeus. Não foi o adeus de alguém que eu tenha conhecido, nem de alguém por quem eu nutria algum sentimento ou admiração, foi o adeus de um estranho. Mesmo assim, a tristeza ao meu redor trouxe à tona memórias saudosas daqueles amados que partiram. Enquanto as nuvens cinzentas e a chuva fina esfriavam mais o dia do lado de fora, a melancolia fazia gelar o coração: apesar de tudo, temos que continuar. Desapego é o nome do primeiro barquinho.
Desapego é feito de gelo, o mesmo gelo da neve das montanhas do inverno. É frio e melancólico, mas pode tornar qualquer cenário absolutamente fantástico. É um barco muito pequeno, por isso para poder saltar dentro dele precisamos abandonar todas as cargas inúteis que tenhamos acumulado pela jornada. O gelo é efêmero, portanto Desapego não pode nos levar muito longe. Seu destino final serão os domínios da Solidão e é lá que podemos nos reencontrar com nós mesmos antes de seguir viagem.
A mudança nunca é fácil, seja lá para quem for. É impressionante como a gente muitas vezes se prende a situações desagradáveis e dolorosas só por não ter coragem de mudar. Pessoas muito queridas têm tomado decisões difíceis nos últimos tempos e o mundo precisa de pessoas assim. É muito mais fácil ter o conformismo com um mundo longe do ideal do que sustentar o ideal para mudá-lo. Com um passo de cada vez se vai longe, como tenho me esforçado para lembrar sempre. Primeiro arrumar o quarto, depois aprender a dançar e por fim, mudar o mundo. O segundo barquinho chama-se Ousadia.
Muitas vezes os homens verão com assombro a passagem do segundo barco, pois a intensidade do brilho do fogo do qual ele é feito será fascinante e ao mesmo tempo aterradora. O calor habita nessa embarcação e ela traz todo o conforto assim como as areias brancas das mais belas praias. Haverá nele a força tanto para destruir como para moldar os mais diversos obstáculos do caminho tornando o percurso à frente mais suave. Não há leme que o conduza se o próprio barco e seu comandante não se tornarem um só e isso torna cada uma de suas viagens uma aventura perigosa. Somente o ardor de Ousadia conduzirá pelos domínios da Ação e fará da busca pela felicidade um encontro real.
O terceiro barquinho é o mais misterioso de todos. Ele não pode ser visto nem ouvido, apenas sentido. Talvez seja esse o motivo de praticamente ninguém conseguir saltar sobre ele quando está de passagem: a maior parte das pessoas só tem olhos pra ver e ouvidos pra ouvir. Esse barquinho não tem nome porque até hoje nem sábio nem poeta puderam encontrar palavra suficientemente adequada para descrevê-lo. Dentre os três, ainda quem sem imagem, é o mais belo e ainda que sem forma, é o mais acolhedor. Cada uma de suas viagens é diferente, pois cada pessoa é diferente em suas jornadas. Ele pode chegar a qualquer domínio, mas há uma condição: somente será seu ocupante aquele que conhecer os domínios da Solidão e da Ação tendo embarcado no Desapego e no Ousadia. Certamente que essa pode ser a viagem mais interessante de todas.
Ainda assim, como disse no começo, não acredito na lenda. Não pelo absurdo de um barco de gelo, outro de fogo e um terceiro barco completamente etéreo. Nem é pelos domínios míticos através dos quais eles navegam que eu não acredito. Eu não acredito na lenda simplesmente porque, outro dia mesmo, tendo perdido todos os outros três, peguei um quarto barquinho. Qual a credibilidade de uma lenda se eles nem sabem ao certo quantos barquinhos são?

Max

sábado, 7 de julho de 2012

O Sorriso da Liberdade

Encontrava-me entre lobos ferozes,
Vagava pela vida como cego.
Acorrentado ao som daquelas vozes,
Entregava-me inteiramente ao ego.

Não conhecia luz nem liberdade,
Mas dos grilhões o destino era a espada,
Pois cavaleiros servos da Verdade
Livraram-me em jornada inusitada

Então, tal como o Sol, tal como a Lua,
Sincero, irresistível, poderoso,
Curou-me teu sorriso milagroso.

Alcançou-me a Verdade bela e nua,
E os dias plenitude me trarão,
Pois vivo a cada instante essa paixão.

domingo, 1 de julho de 2012

Procura-se residência


Liguei a televisão ainda há pouco e vi alguns minutos de um filme que já estava pela metade. Não gosto muito de ver filmes pela metade, por isso deixei pra assistir em outra oportunidade. Filme famoso, no entanto nunca tive curiosidade suficiente para correr atrás até agora. Nos cinco minutos em que a TV permaneceu ligada, um curto diálogo me chamou atenção: uma mulher tibetana e um alpinista europeu compararam o conceito de grandiosidade para seus povos. Para ele, a glória consiste em estar no topo, acima de todos os homens, custe o que custar. Para ela, a glória, o ápice, é o abandono do ego.
Na vida cotidiana eu mesmo venho tendo dificuldade para seguir meu próprio conselho: um passo de cada vez. É muito difícil não ficar tentado a prestar mais atenção ao topo da escada do que ao próximo degrau. A consequência é óbvia até mesmo para uma criança aprendendo a subir escadas: corremos o risco de tropeçar ainda muito longe de onde queríamos chegar. Pular degraus? Bom, acho que essa é uma aventura que já custou belos machucados para todos quando crianças... Pra quê tanta pressa? A maioria não percebe que, enquanto passa correndo pela vida, deixa passar, incógnitos, verdadeiros mestres aos quais bastaria um pouco de cortesia para que nos deixassem conhecer os segredos da existência.
Tenho procurado, incessantemente, o meu canto, o meu lugar. Ainda não sei onde é, mas sei que não é onde estou. Preciso de um lugar com uma bela vista do mundo ao meu redor, como aquela que um sábio pode te mostrar da laje de algum prédio. Faço questão que seja silencioso o suficiente para que eu consiga ouvir meus pensamentos e meu coração. Não precisa ser grande porque se a gente prima pela leveza, não vai mesmo carregar muita coisa do passado além daquilo que é útil e essencial no presente.
Aconchegante, receptivo, acolhedor. Três características importantes de um lugar que eu desejo compartilhar com alguém. Seja para um filme com pipoca, uma pausa no meio da tarde, um jantar romântico ou um chá surpreendentemente filosófico e revelador. Meu canto é onde eu me sinto bem e, por isso mesmo, é um lugar no qual meus convidados se sentem bem. A decoração é minimalista porque não é preciso ter muito, desde que se tenha o suficiente para compartilhar.
Uma vizinhança, pouco importa se grande ou pequena, mas uma que saiba sorrir com sinceridade. Não custa lembrar que vizinhança nenhuma tem qualquer obrigação para comigo, então é importante ter sempre em mente que não posso esperar nada dos vizinhos além do que a gentileza deles esteja disposta a ofertar. Bons vizinhos, na maior parte das vezes, são bons vizinhos simplesmente porque nós mesmos estivemos dispostos a confiar neles.
Pode parecer uma morada muito utópica, mas acho que é essa vida que eu quero chamar de lar, onde quer que eu esteja. Um último ponto importante: a vista pro mar não é essencial, mas é altamente desejável.
Corretores de imóveis não precisam entrar em contato. Grato,
Max

terça-feira, 26 de junho de 2012

De algum lugar na minha mente

Quando acordarem, perceberão que a verdadeira glória nunca esteve na acumulação ou na idolatria e se darão conta que estiveram, por muito o tempo, somente vagando, encurvados pelo peso da própria cegueira. Cairão por terra suas máscaras e sentirão asco de seus próprios rostos, abomináveis que estão depois que suas ações os deformaram.

Folheando diários e grimórios antigos não encontrarão em seus dias mais valor que nas areias que recobriram a Verdade com um deserto estéril. O vasto conhecimento de suas bibliotecas, inútil, terá sido consumido pelas traças de sua superficialidade. Como pó, ruirão as colunas de seus palácios, que foram construídos sobre alicerces de mentiras.

Chegará a devastação de um inverno solitariamente frio e, em vão, farão fogueiras de paixões para tentar aquecer seus corações feito pedras ocas. E não haverá mais amanhecer, pois as horas já não importarão já que nunca souberam o valor do Tempo.

Quiçá virá um tempo em que perceberão o que perderam pelo caminho, mas apenas os de espíritos ousados terão coragem de olhar para trás e atravessar o mar de lágrimas que os separa da esperança. A solidão lhes fará companhia pela jornada e muitos desistirão. A sede de Liberdade e a fome de Felicidade matarão os tomados pelos vícios e darão àqueles mais fortes a dor necessária para prosseguir.

Se a tudo isso resistirem, depois da treva mais escura de todas, terão sido provados e verão com os olhos de verdade a plenitude da Luz da Realização e ela lhes recompensará com a única paga realmente valorosa: Verdadeiro Amor.

domingo, 13 de maio de 2012

Eu convicto


Ontem, na volta do cinema, o ônibus demorou uma hora pra passar. Comigo nunca havia acontecido nesse trajeto. Quando cheguei no ponto tinha uma moça, muito atraente, claramente nervosa pela demora do seu ônibus. Fumava. Na vida agitada, é tão raro termos tempo pra parar um pouco e pensar sozinhos que procuro encarar a espera como uma oportunidades para olhar em volta e analisar o mundo que me cerca. Mesmo reconhecendo que as pessoas tem razão em dizer que eu penso demais, prefiro assim: acho que se eu pensar bastante vou enxergar mais as sutilezas das diferentes tonalidades do mundo. Sério, fixei o olhar na loira fumante.
A última semana só poderia ser classificada como intensa. Boas notícias, surpresas, recompensas e decepções. Diversas vezes quis relatar o que estava sentindo, mas, felizmente, não consegui. Como disse um grande amigo, palavras de grande emoção precisam ser ditas com grande razão. O filme de ontem falava um pouco da busca por respostas, do eterno questionamento humano “Quem sou eu?”. Hoje, depois dessa semana tão cheia de tons, percebi que eu estava sendo pedante, percebi que, assim como em todos os filmes com esse tema, eu não podia estar tão certo do que sou, do que sinto e ainda mais do que poderia sentir ou ser.
Enquanto esperava o ônibus me surpreendi com a mudança na minha própria visão. Pouquíssimo tempo atrás, aquele era um dos meus lugares favoritos, um dos lugares que eu mais admirava, que eu mais achava bonito. Ontem, apesar das pessoas, das luzes e de todas as lembranças fantásticas dos momentos que eu vivi ali, percebi que já não é mais o meu lugar. Sorri. Talvez a linda mulher tenha pensado que eu sorria para ela. Mandou-me um olhar enigmático e um sorriso misterioso. Acendeu seu quarto cigarro. Lembrei que eu dizia que não conseguiria viver longe dali. Ri. A gente fala tanta coisa do futuro com uma certeza que parece até discurso de louco. Nunca imaginei minha vida assim, no entanto, aqui estou eu, realizado. Ela deve ter pensado que eu era louco. Sorri de novo, mas dessa vez, só porque estava feliz.
É necessária muita sobriedade pra não afirmar algo baseado na convicção que temos daquilo que julgamos conhecer. Ficar me perguntando quanto tempo mais meu ônibus demoraria não faria com que ele chegasse mais rápido. Acender um cigarro atrás do outro também não. Ainda assim, a gente continua se fazendo perguntas desnecessárias e tomando atitudes sem sentido. Se não consigo prever nem os horários tabelados de passagem dos ônibus, como é que quero prever os passos do meu próprio eu? Por sinal, mesmo com a infinidade de linhas que atende aquele ponto, acabamos pegando o mesmo ônibus, mas, sem trocar palavras, ela com sua ansiedade e eu com meus pensamentos, descemos em paradas diferentes...

Max